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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

As Travessuras de Tonhola - Bolachas Maria

Naquele dia Dona Rica não conseguira ninguém para ficar fazendo companhia ao neto. Ela não sabia ao certo quanto tempo iria demorar, pois o assunto que estava enrolando a tanto tempo, envolvia repartição pública. O certo é que ela não poderia mais deixar passar pois o tempo previsto, desde que ela recebera a notificação para comparecer com sua documentação na repartição, estava chegando ao fim e para o resto da semana ela tinha outros afazeres, portanto aquela era a data. Assim, sem poder levar o moleque e sem ter com quem deixar, chamou o neto antes de sair, que ainda meio dormindo, disse que tinha entendido e que ia ficar em casa sem aprontar, prometera. Depois de inúmeras recomendações ela foi cumprir seu dever cívico toda preocupada. Ela não gostava nenhum pouco de deixar o neto sozinho, era motivos demais para preocupação. Mas foi com sua sombrinha colorida e a bolsa de couro para momentos como esse, pois nela cabia todos os seus documentos e ainda alguns remédios que não ficava sem, desde que passou por maus bocados, mas isso é assunto para outro episódio que veremos mais adiante.

Estando sozinho em casa, o moleque mal esperou a avó sair e já se levantou imaginando o que ia fazer. Foi até o alpendre, mas o tempo estava fechado, com sinais de chuva e ele não teve ânimo para sair de casa, também não viu nenhum colega na rua para incentivá-lo, voltou, fechou a porta da sala, ligou a televisão e ficou por ali assistindo aos desenhos animados que passavam todos os dias na parte da manhã. Não comeu nada, nem sequer abriu a geladeira e nem tampouco foi ao banheiro fazer as necessidades de quando se levanta, abriu a porta da área e de frente para o quintal fez xixi na beira da calçada e voltou para a televisão. Logo a fome começou a apertar e nada de sinal da avó chegar. Ele não se aguentou e foi procurar o que comer. Viu sobre a prateleira da cozinha ao lado da geladeira uma lata de bolachas que sua avó comprara. Era uma lata de bolachas de maizena de um formato chato e quadrado e estava escrito Bolachas Maria. Era ali mesmo. O moleque subiu na mesa, pegou a lata e foi para a sala. Comeu quase a lata toda de bolachas enquanto assistia os desenhos e nada da avó voltar. Lá pela volta do dia, ele já não aguentava nem ver as bolachas. E para piorar as coisas sua avó demorou bem mais do que esperava e só foi chegar depois do horário previsto para o almoço. Chegou toda esbaforida e das mais preocupadas com o neto e também com a respiração curta por ter andado rápido sob o mormaço quente que não virou chuva. Ao ver o moleque até besta esparramado no sofá com bolachas por todo lado, levou um susto. Pegou a lata com o pouco que sobrou, tampou e guardou no lugar no alto da prateleira. Viu que Tonhola tinha comido quase tudo e que poderia passar mal. − Bem feito seu malandrinho, um pouco só que eu demorei e você não poderia ter me esperado, num minuto o almoço fica pronto, mas não, tinha que comer minhas bolachas todas da semana, agora não terá mais lanche. O menino nem ouvia o que a avó estava esbravejando, aliás, ele estava até com os olhos virados de tão cheio que ficara. Aquele gosto na boca o acompanharia por muitos anos. Bolachas Maria, nunca mais!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

As Travessuras de Tonhola - Garotas

Levado pelos colegas da escola, Tonhola desrespeitou as recomendações de sua avó e se desviou do caminho de volta para casa depois do final da aula. Próximo ao bairro ficava o prostíbulo, zona do meretrício. Nessa região, as casas tinham luzes coloridas para indicar o caminho aos clientes durante a noite. Numa das casas, que era de esquina e tinha na frente um bar imundo, algumas moças estavam tomando sol em trajes de banho num piso cimentado que ficava no quintal. O muro de placa pre-fabricada de concreto, não era muito alto e para ajudar a molecada, um monte da areia fora depositado sobre o passeio que ainda não era pavimentado, facilitando ainda mais aos meninos menores para subir no monte e conseguir ver além do muro. Tonhola estava assustado, mas os colegas o convenceram a ir e estando lá, no topo do monte de areia, conseguiu ver de relance algumas moças com roupas mínimas a cobrir o corpo; olhou muito rapidamente mas naquela idade o corpo lhe tremia feito vara verde, os meninos mais velhos riam e pediam para fazer silêncio para que as moças não percebessem, quando um senhor, vendedor de picolé, que estava passando com seu carrinho, viu aqueles moleques atentados e ralhou com eles para que fossem para casa que aquilo não era coisa de menino, resmungaram qualquer coisa desrespeitando o picolezeiro e deram mais alguma olhada nas moças; só que elas ouviram a bronca e se soltaram todas para se mostrarem aos tarados moleques. Quando Tonhola subiu novamente no monte para mais uma rápida olhadela, uma delas tirou a parte de cima do biquíni e deixou os seus pequenos seios à mostra, para delírio da molecada; que visão inesquecível para o nosso amigo, eram os primeiros peitinhos que ela via; percebendo a algazarra, um senhor gordo, provavelmente o dono do bar, saiu com o avental na cintura esbravejando em direção aos moleques que saíram em disparada rua abaixo. Tonhola aprendeu o caminho.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As Travessuras de Tonhola - Alguns dias na Fazenda

Daquela vez Dona Rica foi junto com o Tonhola num passeio durante um feriado prolongado na fazenda de uns amigos. Foram bem cedinho, ainda de madrugada, os primeiros raios de sol tentavam se manifestar no horizonte, num daqueles amanheceres amarelo alaranjados que inspiram os poetas. O percurso seria feito de ônibus e teriam que caminhar algumas quadras até o ponto. Tonhola nem dormira direito aquela noite, tamanha a expectativa pela viagem. Alguns anos antes, Dona Rica fora a passeio na mesma fazenda, bem antes de Tonhola nascer. O casal de amigos, já idosos, não tinha nenhum dos filhos morando com eles na fazenda, todos já eram adultos e trabalhavam na cidade; naquele final de semana eles estariam sozinhos, por isso fizeram o convite para a velha amiga; é claro que pode levar o neto, será um prazer uma criança ativa para alegrar a casa, foi a recomendação da amiga.

Era uma fazenda antiga, com tudo que uma fazenda tem de direito. Mal chegaram e Tonhola saiu em disparada para conhecer o lugar, os cachorros, três, todos adultos, sendo dois grandes e um pequeno, o recepcionaram, juntamente com o fazendeiro; logo todos já ficaram amigos, algumas crianças têm facilidade em se relacionar já na primeira vez com os animais de estimação. Começou o passeio pelo curral de madeira lascada, com várias repartições para separar o gado; tronco para vacinação dos animais, ligado ao embarcadouro da mesma madeira, mas cheio de terra e com o calçamento interno feito com pedras tapiocangas formando a rampa para o embarque; uma parte do curral também era calçada com o mesmo tipo de pavimento, onde ficavam as vacas de leite para a ordenha; uma parte coberta com algumas prateleiras onde ficavam os latões de metal e também de plástico para armazenar o leite a ser transportado. Tonhola fez questão de percorrer todas as repartições do curral, se divertindo com o chiar das porteiras velhas de madeira que ele abria e fechava. O curral ficava ligado à velha casa. Era uma casa típica com seus mourões de madeira se destacando sobre o emboço rústico com pintura a cal na cor azul já bem desbotado, mas ainda dava para ver as marcas da brocha no grosso da pintura que ainda insistia em permanecer ali; as janelas eram todas de madeira e enormes, muito altas com os batentes grossos se sobressaindo sobre o emboço, tanto para as janelas como para as portas e eram pintadas com um tipo de verniz sem brilho, ou desbotado, de cor escura tipo imbuia.

No quintal, um pomar bem formado com muitos tipos de árvores frutíferas, onde um pé de jaca totalmente carregado de frutos de todo tamanho se destacava entre os demais e uma variada espécie de frangos, galos, galinhas, pintinhos, angolas, marrecos e até um pavão, todo imponente, ciscavam por entre as plantas.

Nos fundos um mangueiro com muitos porcos caipiras se chafurdando na lama; o cercado dos porcos era feito com tábuas rústicas de madeira também lascada, dispostas lado a lado semi-enterradas no terreno em todo o contorno do mangueiro, podia-se ver muitas palhas de milho seco esparramadas, algumas ainda limpas que os porcos deviam ter acabado de comer. Tonhola era só felicidade.

Depois de explorar todo o entorno da sede, ouviu os gritos da avó o chamando na varanda da casa. A varanda era em forma de éle, sendo mais larga a parte que ficava nos fundos, de frente para o pomar; ali também que ficava o fogão a lenha e uma enorme mesa de madeira, que mais tarde ouviram, era um orgulho do fazendeiro porque ele ajudou a derrubar a árvore que deu aquela mesa, um tronco só, de sucupira preta, tão larga que Tonhola tinha que abrir os braços para segurá-la nas extremidades frontais com as duas mãos e na espessura era da grossura do punho fechado do menino; as pernas da mesa eram quadradas e grossas e umas vigas em xis davam o travamento garantindo a estabilidade da estimada e útil mesa de fazenda; já as cadeiras, eram de vários tipos e a maioria comprada em lojas, algumas até com estofamento estragado, dando a impressão de serem móveis da cidade que ficaram velhos e foram levados para a fazenda, contrastando com a beleza da mesa rústica.

Passados os minutos de admiração, era hora do lanche, e que lanche: broa de milho, bolo de fubá, pão de queijo, geléia caipira de marmelo, chá de canela e leite quente adocicado com açúcar queimado, que delícia; como saíram de madrugada, sem se alimentar direito, aquele café era, com certeza, muito bem vindo por nosso amigo. Enquanto Tonhola se fartava à mesa, Dona Rica, também beliscava alguma iguaria tomando café em uma xícara de alumínio esmaltado branco, já com as beiradas lascadas pelo uso e com uma estampa de um bezerro malhado em preto e branco. A amiga, não se sentou à mesa, ela continuou sua lida, já se preparando para iniciar o almoço, uma lenha a mais no fogão, uma água na panela de ferro maior para começar a ferver, uma batida no feijão na peneira que aparentava já ter sido catado. Uns nacos de carne seca, pendurados no madeiramento esfumaçado da cobertura sobre o fogão, foram retirados e levados ao tanque para serem lavados e separados numa bacia de alumínio muito bem areada, certamente seria a mistura do almoço.

O fazendeiro estava demorando. A esposa disse que ele tinha ido ver uma cerca que o gado estava passando, mas que já devia estar voltando, era já quase hora do almoço.

Tonhola perguntou pela televisão, ali não tinha televisão, só quando os netos vinham é que eles traziam, perguntados por que eles não deixavam a televisão na fazenda, a senhora disse que o marido é que não queria, para não pegar os maus costumes da cidade e assim ela também se acostumara e não sentia falta. As noites, em sua maioria, que ficavam somente os dois na fazenda, algumas vezes eles tinham a companhia de empregados da fazenda que moravam em suas casas que ficavam um pouco afastadas, um deles tinha até dois meninos da idade de Tonhola, já precisando ir para a escola. As noites que não recebiam visitas ficavam sentados na varanda, nas duas cadeiras de balanço, conversando abobrinhas e observando o horizonte imaginando os mundos que não haviam atrás dos montes. Também, eles dormiam muito cedo, junto com as galinhas.

Tonhola ficava atento a tudo que a senhora falava, ele estava fascinado com o jeito sossegado dela falar com aquela voz manhosa que se arrastava.

Com a chegada do marido, almoçaram. Após o almoço, nosso herói, cansado por ter acordado de madrugada, dormiu na cama com colchão barulhento de mola no quarto dos netos com aquelas enormes janelas de madeira.

Acordou ouvindo o fazendeiro chegando a cavalo, ficou chateado com a sensação de que perdera alguma coisa, pensou que talvez pudesse ir também a cavalo em companhia, mas não fora daquela vez, foi lá ver o fazendeiro desarrear a montaria: um arreio muito antigo de couro, um pelego de lã vermelha, uma baldrana com grandes bolsos dos dois lados, mas que estavam vazios e a cabeçada, com rédea de lã trançada, o baixeiro era de um tecido grosso tipo lona e de uma cor esverdeada, que exalava um cheiro muito forte do suor do cavalo, mas que não era enjoativo; estando tudo no lugar, o fazendeiro o convidou para conduzir o cavalo pelo cabresto até o pasto; que alegria, se sentiu o poderoso; durante o percurso foi perguntado se já havia andado a cavalo, com a negativa, foi convidado a andar no outro dia de manhã; solto o animal, o menino saiu correndo todo feliz para contar a novidade para a avó.

Naquele primeiro dia na fazenda, a noite chegou mais devagar, uma colaboração da natureza para que eles pudessem admirar o esplendor dos tons de vermelho no por do sol entre as montanhas. Jantaram um belo de um frango caipira com caldinho que sua avó disse também ter ajudado a fazer; a sobremesa era um pote de doce de casca de laranja, mas Tonhola não quis, foi para a varanda acompanhar o fazendeiro; sentou num banco de madeira que era uma tábua da mesma madeira da mesa da cozinha, presa entre os pilares de sustentação da varanda; enquanto observava o fazendeiro, que não gostava de muita prosa, espichar as pernas sobre um banquinho pequeno de madeira e acender um cigarro de palha grosso e fedido; até que sua avó veio chamá-lo para ir se deitar, afinal ela também havia madrugado e estava cansada da viagem.

Naquela noite, junto com o casal de amigos, eles também foram dormir com as galinhas. Certamente Tonhola deve de ter sonhado com o passeio que o aguardava no outro dia.

Dormir cedo tem dessas vantagens, no outro dia ainda estava escuro e já se ouvia barulho pela casa, passos delicados pra lá e pra cá, berros vindos do curral, Tonhola se levantou apressado, não conseguiu abrir a pesada e grande janela de madeira, mas pelas frestas já dava para ver o bucólico clarear da manhã sertaneja, aquele cheirinho delicioso de café torrado tomando toda a casa vindo lá da cozinha. Lavou-se, sua avó já estava composta observando a amiga e com toda disposição: onde posso ajudar, o que fazer primeiro, água para as galinhas deixa que eu arrumo a mangueira, ela deve ter se soltado da torneira durante a noite, tire a vasilha com as quitandas, tem chocolate em pó na despensa, se o menino quiser, ele gosta de tomar leite no curral, nunca tomou, então ele vai gostar, peque aquele copo grande de alumínio, coloque o chocolate em pó do tanto que ele gostar e vá com ele até o curral que ainda estão tirando o leite, que bom, vamos lá Tonhola, mas sem fazer barulho para não assustar as vacas, se ajeitaram na beira da cerca, e o menino subiu na terceira tábua do curral para ver melhor o fazendeiro com seu chapéu de lebre bem surrado e suas botas de borracha branca agachado entre as vacas tirando o leite junto com um ajudante que também tirava o leite de outra vaca do outro lado, pediram para esperar um pouco porque já estavam terminando aquelas vacas e iam chamar a manhosa, uma vaca especial, para que bebessem o leite dela; o leite veio quente, espumando e Tonhola o bebeu quase que de um gole só, quer mais, dá cá o copo novamente, o chocolate ainda se mostrava no fundo do copo, tomou mais devagar o segundo copo de quase meio litro; sua avó não bebeu; aquilo sim era um verdadeiro café da manhã, agora era aguardar o final da retirada do leite e esperar eles soltarem as vacas para depois cavalgarem; foram para a varanda terminar o café, nesse prazo a amiga tinha feito uns bolinhos de polvilho fritos na manteiga, mesmo com o tanto de leite que bebera no curral, os bolinhos eram irresistíveis, o menino comeu alguns e foi para a varanda da frente da casa aguardar ansioso pelo passeio a cavalo.

Viu quando acabaram de retirar o leite, o vaqueiro dirigiu-lhe uma brincadeira qualquer de longe, que ele não entendeu direito, mas acenou com a mão em agradecimento mesmo assim, o fazendeiro veio em sua direção e ele o acompanhou adentrar a casa e se dirigir a uma sala na lateral onde trocou as botas e foi para a varanda tomar o café com as senhoras. O vaqueiro atendeu ao pedido do fazendeiro e trouxe os cavalos para a porta da casa, já arreados, um com um arreio para meninos que há tempos não era usado; os netos cresceram e não mais quiseram andar a cavalo.

Por ter sido a primeira vez, até que foi tudo bem, não deu nenhum trabalho, e olha que nosso amigo conseguiu acompanhar a volta matinal rotineira do fazendeiro por quase toda a fazenda. Um passeio inesquecível.

Tonhola não pensava em voltar à cidade. Todos os dias de manhã ele tomava leite no curral, acompanhava o fazendeiro na cavalgada matinal, almoçava como um príncipe, cochilava no período da tarde, ajudava a zelar da criação, adorava jogar milho para as galinhas: cut, cut, cut; as vezes ouviam rádio na varanda após o jantar, os quatro, enquanto relembravam fatos antigos, lembranças comuns que despertavam a imaginação do moleque, que atento, não perdia uma fala, até fazia perguntas curiosas provocando risos.

Mas era preciso voltar. Foram acompanhados no dia da volta, após o almoço, até a beira da estrada, onde debaixo de um frondoso pé de jatobá, aguardaram a chegada do ônibus que os levaria até a cidade. Convidados a voltar, Tonhola já queria deixar até marcado o dia, calma menino, não é bem assim, disse Dona Rica, satisfeita com o tranquilo descanso e também até que surpresa pelos dias sem preocupações maiores com o neto.

As Travessuras de Tonhola - O Início das Aulas

Chegou o início das aulas. Dona Rica estava mais apavorada até do que o moleque Tonhola. Deu banho, esfregou bem os pés, as unhas das mãos que estavam um horror, as orelhas e o cabelo. Vestiu uma camisa branca nova de tergal, calça curta de brim azul, meias brancas limpinhas e um sapato preto, de cadarço que ele ainda não sabia amarrar, vivia dando nó cego, para desespero de Dona Rica. Foram juntos para a escola, em todo o trajeto ela não soltou a mão do neto. Depois de muita luta, ela conseguira, com a ajuda do filho que trabalhava na prefeitura, uma vaga para o menino numa escola municipal próxima, ficava num outro bairro, mas não muito distante de casa, algumas quadras apenas; longe o bastante para não deixar o menino ir sozinho, pelo menos nos primeiros dias. Foram bem recebidos, na entrada da escola, uma atendente orientou em qual sala ele ficaria e qual seria a professora dele. Dona Rica o acompanhou até vê-lo sentado na carteira, ao lado dos colegas; a professora já estava à espera dos alunos quando eles chegaram e ela foi logo perguntando o nome do aluno e se ela seria a avó, apresentados, a professora disse que a avó poderia voltar para casa e ficar tranquila que ele ficaria bem e que as aulas terminariam tal hora, e ela poderia voltar para buscá-lo. Dona Rica ficou um pouco aliviada, mas não tanto como gostaria. Na turma também tinha alguns garotos mais velhos que a deixaram preocupada, certamente ela via ali sinal de problemas futuros.

Alguns dos alunos já eram conhecidos da professora do ano anterior, dava para perceber isso pela dura que ela já dava na meninada chamando-os pelo nome. Para nosso amiguinho, que ficou atento o tempo todo, a primeira aula foi dia de reconhecimento do terreno. Ele coçou a língua de vontade de perguntar algumas coisas à professora, mas se conteve, não faltarão oportunidades. Aguardem.

As Travessuras de Tonhola - Estrago na Torta

A avó de Tonhola era famosa na região por ser boa quitandeira. Fazia umas tortas e doces, sempre que podia, por encomenda, para ajudar nas despesas. A pamonha de milho verde já era famosa e fazia a festa da vizinhança, como vimos anteriormente e ainda veremos por ser uma iguaria que merece um capítulo à parte. Ela sabia fazer uma torta que levava doce de pêssego em calda. Uma vizinha candidata a noiva, sabendo das prendas de Dona Rica, encomendou-lhe uma daquelas tortas com cobertura de chocolate branco e decorada com pedaços de doce de pêssego. Era para agradar o namorado num possível pedido de noivado. Combinada a encomenda, foram separados os ingredientes e a torta foi feita com carinho especial, a receita pedia que ela dormisse na geladeira para ser saboreada somente no outro dia. Tonhola estava por ali brincando com os vizinhos como sempre e não prestou atenção no motivo da torta e sua avó distraída e satisfeita como um artista quando prepara sua obra prima, não pensou em avisar o neto para não bulir com aquela torta. Concluído o trabalho, levou a bandeja no congelador e deu o trabalho por concluído, no outro dia, era só entregar à vizinha. De manhã, Dona Rica foi conferir e achou que a torta estava uma maravilha; tudo conforme pedia o figurino, cremosa e meio que congelada; deu uma leve ajeitadinha nos pêssegos e levou-a de volta à geladeira, dessa vez na parte baixa, fora do congelador. A moça foi conferir a gostosura por volta do meio dia e ficou encantada, como era de se esperar, disse que queria fazer surpresa, pediu a Dona Rica que cuidasse dela até o anoitecer, pouco antes da hora marcada para o noivo chegar, ela buscaria a torta, queria fazer surpresa também para os seus pais e não somente ao noivo; sem problemas, disse-lhe Dona Rica, pode ficar tranquila e assim que você quiser pode vir buscar. Triste sina dessa pobre avó. Ela não contava com a fome vespertina de seu neto e os coleguinhas que brincavam no quintal. Apesar do lanche de pão com manteiga que ela havia deixado sobre a mesa da área de serviço preparado para os meninos com uma jarra de suco de uva de saquinho; aquele lanche lhes era familiar, a torta não, quando Tonhola viu aquela beleza de torta na geladeira, nem quis saber, foi nos copos americanos mesmo, pegou um para cada menino, eram três, serviu a torta com colher de sopa, sujando a geladeira com a calda e lá se foi a metade da torta. Que doideira. Dona Rica quando viu ficou apavorada e maluca de raiva com o neto e consigo mesma que se descuidara um pouquinho só e fizeram aquele estrago. Não tinha o que fazer, tudo fora para o brejo. Adeus noivado pensou consigo, e tudo por culpa sua. Em seu nervosismo decidiu que não mais faria tortas por encomenda.

As Travessuras de Tonhola - Separando a Tela

O terreno em que Dona Rica morava era estreito e comprido. A casa ficava na parte da frente próxima à rua e o que sobrava para os fundos dava um excelente quintal. Ali se plantou milho e mandioca por quase todos os anos. Tonhola adorava quando a vizinhança se reunia debaixo da sombra das mangueiras para fazer pamonha, deliciosa iguaria de milho verde, em tachos à lenha. Todos trabalhavam, até as crianças menores ajudavam a arrancar os cabelos dourados das espigas de milho; no final, depois de algumas horas de muitas risadas e conversa fiada, todos comiam aquela massa deliciosa e quentinha, que podia ser de sal ou de doce, saída da fornalha à lenha onde a pamonha era cozida na própria palha do milho, amarrados no meio formando uma cinturinha, ou amarrados tipo uma trouxinha. Era uma verdadeira festa.

Certa vez, o filho de uma vizinha de Dona Rica, muito querida por ela e amiga de muitos anos, veio lhe pedir se ela o permitiria utilizar parte do seu quintal para criar umas galinhas caipiras da hora que estavam sendo muito divulgadas na praça. Na linguagem dele, era dinheiro certo no bolso, e é claro, que se ela permitisse, também receberia sua parte pela sessão do terreno. Sem pensar no retorno financeiro e muito mais pela consideração que Dona Rica tinha pela mãe do rapaz, ela concordou, mas, com a recomendação de que as galinhas fossem separadas por uma tela de modo a não danificar as plantas que ela cuidava no quintal. E assim foi feito. O rapaz providenciou a cerca de modo a praticamente dividir em dois o terreno que já era todo murado nas laterais; numa parte ficava a casa com a maioria das plantas e na outra o galinheiro. Por se tratar de galinhas caipiras, elas eram criadas soltas mesmo e o poleiro eram os galhos das árvores, mangueiras, goiabeiras, um pé de ameixa que nunca dava frutos, um pé de abacate que era o menos usado pela altura da galhada e um tronco grosso deitado de uma enorme mangueira que fora cortada há alguns anos; o trato era com milho puro e o capim que já existia no terreno, tipo grama derruba-velho. A quantidade de galinhas foi aumentando semana a semana. Tonhola gostava de ficar olhando as penosas e também dava sua mãozinha de bom grado na hora do trato.

A tela do galinheiro fora muito bem feita e esticada presa a mourões de concreto espaçados de forma a não permitir que tombasse com o seu próprio peso. Um belo dia, Tonhola jogava biloca com dois amigos quando uma das bolas de gude foi parar num buraco pequeno no pé da tela do galinheiro. Ao tentar apanhar a bola com a mão, Tonhola percebeu que o arame que formava a tela estava solto em sua parte inferior e aquilo o intrigou; ele puxou o arame com mais força e ele se desprendeu do outro dando quase que uma meia-volta, como a tela estava muito bem esticada, quando o arame se desprendeu a tela meio que começou a se abrir aumentando mais ainda a curiosidade do menino que já havia chamado os outros dois colegas para ver o que ele acabara de descobrir: segure aqui que eu vou tentar dar uma volta nessa perna do arame daqui e pronto, se soltou, vamos dar outra volta no arame; e assim foi volta a volta no elo da tela até que eles conseguiram partir a tela ao meio em duas partes, um pedaço caiu para cada lado; as galinhas passaram pelo vão aberto e foram direto para as plantas de Dona Rica; "corre lá e feche o portão", gritou um deles.

As Travessuras de Tonhola - Queda do Telhado

Dona Rica tinha em seu quintal uma pequena criação de galinhas. O galinheiro fora muito bem feito por seu filho e um amigo carpinteiro que deram duro num sábado inteiro. Tonhola ajudava a avó na criação das penosas: jogava milho, colocava água no pneu velho recortado que servia de bebedouro, recolhia os ovos, chô , chô, limpava o piso e ele até que se divertia com aquelas simples tarefas. O que ele menos gostava era de limpar o esterco da galinhada, mas, fora isso, até que ele era um bom menino na lida com as criações domésticas.

Certo dia ele brincava de se esconder com alguns amigos. Brincadeira divertida que a criançada adorava. Numa das vezes em que ele fora se esconder, quis dar uma de esperto, como sempre, e tapear o restante da molecada. Inventou de subir no telhado do galinheiro e se esconder num pé de romã que ficava ao lado do muro, divisa com a casa do vizinho. Com o auxilio de um toco de madeira apoiado na parede do galinheiro ele esperou o moleque da vez iniciar a contagem com os olhos vendados, para que os demais se escondessem e de um salto rápido subiu no telhado, começou a andar em cima das telhas para alcançar o pé de romã, não deu outra, as telhas frágeis de fibrocimento, não aguentaram o seu peso e ele se arriou sobre o poleiro das penosas. Teve muita sorte, caiu de pé, encavalado sobre um caibro de madeira, que servia de poleiro, com altura um pouco menor que as suas pernas, se ele fosse mais baixo teria arrebentado as partes, teve somente um arranhão no lado interno da coxa direita, menos mal, mas o susto foi tremendo e o barulho assustador; sem contar o prejuízo, com o tremendo barulho, a coitada da avó saiu correndo de dentro de casa apavorada para ver o ocorrido. Tonhola estava branco de susto, dois garotos o olhavam por cima do muro naquela embrulhada na qual se metera. Quando viram a avó se aproximando, os moleques deram no pé. Tonhola, muito assustado, quando deu por si de que não havia se machucado com maior gravidade, e já com as penas das galinhas se assentando, passado o alvoroço do susto, tratou de ir saindo logo dali para ver o tamanho do estrago que acabara de fazer. Fora do galinheiro e ainda com as pernas trêmulas ele só conseguia pensar no tamanho da bronca que o tio não lhe daria. Dona Rica, depois de visto o estrago e de se certificar que o moleque estava bem, teve vontade de arrancar-lhe as orelhas, mas, avó é avó e aliviada, mandou o moleque direto para o chuveiro.