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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As Travessuras de Tonhola - Casa do Tio

Algumas vezes o filho de Dona Rica insistira com ela para que deixasse Tonhola passar uns dias em sua casa com sua família. Mas ela sempre resistira, pois sabia muito bem o neto danado que tinha e achava que eles não o tolerariam por muito tempo. Ela temia que a situação ficasse pior do que já era. Até que um belo dia, ela, muito cansada, não hesitou e cedeu à insistência do filho, afinal, certamente far-lhe-ia bem ficar alguns dias sem as estripulias do neto.

Assim se fez. Tonhola já ficara algumas vezes na casa do tio quando menor, mas, com o crescimento do corpo, veio na mesma proporção, uma sensível piora no comportamento e por isso sua avó não o deixou mais ir. Naquele tempo, suas artes ainda eram consideradas gracinhas de criança.

O filho de Dona Rica, não era o que se pode chamar de bonzinho, além do mais, conhecia muito bem a pestinha com quem iria lidar, por isso, antes de levá-lo, preparou direitinho o espírito da esposa e dos filhos para receberem bem o sobrinho famoso nas peraltices. Por mais afastado que ele ficasse da casa da mãe ela sempre o mantinha informado sobre o comportamento do moleque.

Para Tonhola o passeio lhe causava certa expectativa positiva, afinal, a ideia de sair de casa lhe era agradável. Mas, naquele caso, havia um motivo a mais que embaralhava sua fértil imaginação que era o convívio com os dois primos mais velhos, chatos, mimados e que aprontaram com ele nas outras vezes. Isso sim, o preocupava. Era chegada a hora da vingança, pensava consigo, pois ainda trazia vivo na memória os cascudos e empurrões que lhe deram por serem maiores e mais fortes. Que nada, daquela vez seria tudo diferente, pensava consigo, afinal, ele havia crescido e apostava com qualquer um que aqueles dois almofadinhas, não teriam a coragem de aprontar com ele novamente.

O primeiro dia foi de apreensão, de reconhecimento do terreno. Tonhola estava assustado, pássaro fora do ninho. Com o passar do tempo foi se acostumando. Os primos estavam muito tranquilos para o seu gosto, pareciam até indiferentes com sua presença e aquilo estava começando a incomodá-lo. Pela manhã, os primos iam para a escola. Na período da tarde eram praticamente obrigados pela mãe a se dedicarem, quase que o tempo todo, às tarefas da escola. A mãe dos garotos era uma mulher muito dedicada, quando ela não estava cuidando da casa, estava na cozinha ou no quarto, debruçada sobre uma máquina de costura o tempo todo. Como se pode notar, até aqui, não foi muito divertida a estada de nosso amigo na casa de seu tio porque à noite ele chegava e era um respeito só, não brincavam e logo depois do jantar, um nada de televisão e já eram obrigados a ir para a cama.

Aquela situação durou poucos dias. Entediado, Tonhola tentou sorrateiramente sair da casa, ou melhor, começou a preparar o caminho para que o levassem de volta.

No mesmo dia, à noite, esperou que os primos deitassem, fingiu que estava dormindo e aguardou um pouco depois que as luzes foram apagadas, levantou-se, foi até o banheiro, apanhou o tubo de pasta de dentes, voltou ao quarto e esvaziou o tubo dentro do tênis do primo mais velho e foi dormir tranqüilamente. Ao amanhecer, o primo foi calçar o tênis para ir à escola e tomou o maior susto, ainda sem acordar direito, quando sentiu aquela meleca branca e fria em seu pé; foi um deus-nos-acuda, se não fosse a tia a segurar o filho ele certamente teria tomado a maior surra. Os primos estavam com o Tonhola pela altura do pescoço, era esperar para ver.

O primo mais novo era o mais gordinho e adorava deitar após o almoço e dar uma cochilada enquanto o outro grudava em frente da televisão. Aquilo iluminou mais uma maléfica idéia em nosso amigo. No outro dia, após os primos irem para a escola, Tonhola atrasou por demais seu café da manhã e enquanto sua tia arrumava as camas no quarto, ele esfarelou cuidadosamente um pedaço de pão, embrulhou num pedaço de papel de padaria e um pouco antes de os meninos chegarem foi até o quarto e esparramou as migalhas de pão duro sobre o lençol da cama do gordinho. Almoçou com os primos como todos os dias como se nada tivesse acontecido, foi para a sala ver televisão e ficou só escutando. O gordinho esperou o pai ir para o trabalho e foi para o quarto, tirou o uniforme, botou um calção largo e, sem camisa, todo preguiçoso, esparramou-se na cama. Foi mais uma confusão dos diabos, uma gritaria maluca, a mãe deixou seus afazeres e saiu correndo toda assustada ver o que era aquilo. A bagunça foi tanta que a tia, muito irada, depois de uma baita de uma repreensão no moleque, separou os filhos no quarto e resolveu trancar o sobrinho por várias horas no banheiro.

Com aquela mente astuta e preso, um longo tempo, num espaço reduzido, era tudo que o moleque precisava para programar a próxima empreitada. Sentado no vaso sanitário, com a mão sob o queixo e o olhar perdido no vazio percebeu na parede oposta, que na tábua do meio da prateleira, entre diversos objetos, havia um pote de vidro com algumas moedas, em sua maioria moedas antigas. Ele se levantou, apanhou o vidro, tirou as moedas e ficou brincando de jogá-las de uma mão para outra de frente para o espelho sobre a pia quando uma delas caiu e foi diretamente para o ralo da pia. Era uma moeda pequena e com o auxílio de um grampo de cabelo que estava na prateleira ele facilmente conseguiu tirar a moeda, ao mesmo tempo percebeu que entre as moedas maiores havia algumas que eram exatamente do tamanho do orifício do ralo e, portanto, mais difíceis de serem retiradas. Nivelou o ralo da pia com a louça da cuba com tantas moedas lá coube. Colocou as outras no pote de vidro e o pôs de volta na prateleira. Começou a rir sozinho em imaginar a ira do tio quando chegasse em casa e encontrasse o lavatório entupido de moedas. Algum tempo depois, a tia esperou os meninos se acalmarem e repetiu a eles as várias recomendações que havia prometido ao marido para a lida com o primo; os fez prometer que nada fariam de mal ao moleque; foi até o banheiro, bateu na porta, destrancou e tomou o sobrinho pelo braço e o fez ficar grudado na televisão junto com ela, que bordava uns panos ao seu lado e os primos no outro sofá, até o tio chegar do trabalho. A tia estranhou a tranquilidade que o sobrinho saiu do cativeiro imposto por ela, um pequeno sentimento de remorso tomou-lhe o peito, mas logo passou. Quando o tio chegou, como sempre fazia, foi logo para o banho, mas sem antes perceber que alguma coisa de errado tinha acontecido, mesmo sem falar nada com a esposa, só de ver aqueles três sentados no sofá. Agora era o Tonhola que estava estranhando a demora do tio. O tempo passava e nada acontecia, a apreensão dele aumentava com os olhos atentos ao corredor que dava para o banheiro. O tio, quando percebeu a molecagem que o sobrinho tinha feito, não se alterou. Num outro pote na mesma prateleira ele também guardava junto com umas ferramentas miúdas, um pequeno imã. Com facilidade ele retirou as moedas do ralo. Saiu do banheiro como se nada tivesse acontecido, passou pela sala, perguntou o que eles estavam assistindo e avisou ao Tonhola que no outro dia o levaria de volta para a casa da avó.

As Travessuras de Tonhola - A Primeira Vez no Cinema

Certo dia, uma moça, vizinha de Dona Rica disse-lhe que levaria ao cinema sua priminha e que se ela deixasse, levaria também o Tonhola. Ao ouvir aquela conversa deliciosa, nosso amigo, que já via com certa simpatia aquela vizinha, não coube em si de contentamento. Começou a rir e a pular na cama numa reação eufórica plenamente natural para a sua idade. Era sábado e combinaram de ir à tarde, na sessão das quatro horas. Até então, a ansiedade tomou conta de nosso amigo, pois ele também nunca havia ido ao cinema. Ficou pronto, com o sapato limpo e bem amarrado, com o cabelo todo engomado de creme, logo após o almoço, bem antes da hora marcada para elas passarem. Lá se foram. Chegaram quase uma hora adiantados, por isso não enfrentaram fila para a compra dos ingressos, apesar de o movimento na entrada do cinema já ser grande com muitos meninos e meninas com a mesma faixa etária. Tudo era novidade para o nosso amigo. Ficou impressionado com a fachada do prédio. Muitas cores, muitos cartazes de filmes. Ao entrarem, a moça comprou-lhes balas, doces, pipocas e refrigerantes. Tonhola não se aquietava, com permissão da acompanhante, percorreu todos os corredores entre as poltronas de madeira e também os que davam acesso aos sanitários, na direita, o corredor masculino e na esquerda o feminino; a iluminação não era muita, mas dava para reconhecer o moleque à distância, para tranquilidade da moça. A menina não quis sair da poltrona, preferindo os prazeres das guloseimas. Faltando alguns minutos para o início do filme, foi dado o primeiro sinal, um toque quase que mágico parecendo um sino bem distante, avisando que a projeção estava para se iniciar: "din...don". Era hora de tomar seus lugares e esperar o deslumbramento se realizar. As luzes foram parcialmente apagadas e uma ligeira correria se formou nos corredores em busca dos assentos, em poucos minutos as luzes se apagaram totalmente e o sinal mágico foi acionado novamente. Uma música maravilhosa que o marcaria por toda a vida, encheu os ouvidos de Tonhola. As cortinas se abriram no paredão branco lá no fundo do palco e teve início aquele mundo estupendo que pela primeira vez aparecia em sua vida: primeiro veio o futebol com detalhes em câmara lenta bem específicos das jogadas, da bola, da torcida, com uma música de fundo em ritmo de um samba bem animado, bem brasileiro e o menino era um riso só; depois, foi exibido um filme de curta metragem de um desenho animado muito diferente dos que ele via na televisão, era um desenho numa grande cidade em que os prédios, as casas, as pontes, as igrejas, tudo se movia junto com as pessoas e os animais, de uma forma muito engraçada. Terminado o desenho animado a moça avisou aos dois pupilos que o filme ia começar. Tonhola não piscava o olho. Uma música forte entrou aceleradamente e lá bem no fundo da tela surgiu um ponto escuro que veio crescendo, voando na direção da platéia e transformou-se num enorme pássaro preto, foi quando a platéia se manifestou fazendo "chit... chit...chit" e batendo o pé no chão para espantar o pássaro gigante que atendendo aos pedidos, espantou-se e foi embora provocando uma sonora gargalhada da platéia que aos poucos foi se abaixando e transformou-se silenciosamente numa só concentração. Começou o filme. Era um bang-bang italiano daqueles muito mentirosos em que havia cavalos demais, índios demais e mais ainda soldados da cavalaria, e olha que naquela época ainda nem havia o recurso da computação gráfica para se multiplicar as imagens, mas tudo bem, para quem nunca tinha ido ao cinema, era tudo novidade e diversão. Até que... depois de milhares de tiros disparados por todos os lados, e, sem saber definir direito o mocinho do bandido, uma cena das mais estapafúrdias muito lhe chamou a atenção. Era um duelo. De um lado, um magricela com o chapéu atolado, lenço no pescoço e um revólver de cabo branco de cada lado da cintura que ele entendeu ser o mocinho, do outro lado, um grandalhão barbudo e mal encarado com um enorme chapéu colorido, que ele imaginou ser o bandido; caia uma chuva fina e todos em cena se afastaram deixando somente os dois inimigos no meio da rua enlameada; iniciado o duelo, o nosso amiguinho ficou muito impressionado porque os dois oponentes seguiam atirando um no outro, de baixo daquela chuva fina, e, a cada tiro dado, davam também um passo para frente em direção ao outro numa tremenda demonstração de coragem, mas, nenhum deles parecia sentir as balas penetrando em seus corpos e também as balas por mais tiros que dessem não acabavam em suas armas. Foi danado o primeiro filme do nosso amigo!

As Travessuras de Tonhola - O Circo

Em cidade pequena do interior, raramente tem atrações para o divertimento das pessoas. Quando aparecem espetáculos maiores, tipo um circo, a divulgação anterior ao início das apresentações, toma conta de toda a cidade. No rádio, a novidade é anunciada a todo momento com a proximidade da estréia. Divulgaram que antes do início das apresentações, haveria um desfile pelas principais ruas da cidade com a presença dos carros, com os animais, os palhaços e todo o elenco de artistas de todas as partes do mundo. E assim foi feito. Na véspera da estréia, a caravana circense saiu pela cidade fazendo o maior alvoroço, soltando fogos, com muita música e na frente um carro com alto-falantes anunciando paulatinamente cada número a ser apresentado. Tonhola nunca havia ido a um circo. Quando ele ouviu aquele som mágico, saiu correndo, alucinado, atraído por aquela vibração que só o circo consegue impor às crianças. Tudo lhe era novidade: os elefantes, leões, ursos, os macacos enormes, todos eles animais que ele só vira pela televisão. Ficou fascinado e acompanhou o desfile pelas ruas por um longo trecho. Voltou para casa correndo, saltitando pelas ruas de contente e ao chegar, foi logo insistindo para que a avó o levasse ao circo.

Há anos Dona Rica não assistia a um espetáculo daquele porte. Certa vez ela ouvira que circo, viu um viu todos, mas no fundo ela sabia que não era bem assim, porque circo tem magia e onde tem magia cada um tem o seu jeito próprio de sentir, ainda mais quando se é criança. E também a idade lhe tirara a motivação para uma atração tão agitada. Mas, quer saber, avó é avó, convenceu-se. Decidiu ir ao circo com o moleque no domingo. Tonhola não cabia em si de felicidade.

As Travessuras de Tonhola - Entrando Pelo Cano

A rua de Dona Rica, naquele tempo, já era asfaltada, mas, duas quadras abaixo o asfalto terminava e ainda faltavam mais duas até se chegar ao córrego. A prefeitura estava iniciando naqueles dias as obras de infraestrutura para o escoamento das águas servidas e das chuvas nas ruas a serem pavimentadas. Toda obra de construção civil é uma curiosidade para a criançada, ainda mais quando se trata de escavações no meio das ruas. Tonhola, junto com a molecada da vizinhança acompanhava as obras todos os dias importunando a vida dos operários. Entravam nas valetas, atiravam torrões de terra uns nos outros, gritavam assustando os trabalhadores, o que era um perigo, pois poderiam se machucar caindo, ou mesmo num acidente mais grave com as máquinas pesadas trabalhando muito próximo. Quando iniciaram a colocação dos tubos de concreto para a condução das águas das chuvas, aumentou a fascinação e a curiosidade da molecada. Aquele túnel artificial que se formava ali embaixo da terra enchia de planos aquelas cabecinhas mais afoitas.

Para surpresa nossa a idéia mais maluca, não partiu do nosso Tonhola. Dois irmãos negrinhos chamaram-no para juntos entrarem nos tubos adentro para verem onde ia dar. É claro, a resposta mais do que depressa foi afirmativa. Marcaram a aventura para o final de semana, pois era quando os operários paravam mais cedo. O serviço andava a todo vapor e àquela altura, várias quadras já estariam interligadas pelos túneis subterrâneos. Os tubos tinham uma altura tal que dava para os nossos pequenos aventureiros quase de pé, com apenas uma envergadura na espinha. Chegado o dia e hora marcados, entraram tubulação adentro. Alguns poucos metros caminhando à frente, começaram a perceber o aumento na escuridão, o que só fez aumentar o medo nos moleques, principalmente nos dois negrinhos que não demoraram muito e chamaram Tonhola para regressarem. Discutiram, Tonhola os chamou de frouxas e seguiu sozinho naquele breu. Sem enxergar nada, seguiu tateando pelas paredes dos tubos. Os negrinhos saíram dos tubos quase brancos de medo e ficaram ali na entrada esperando pela volta do amigo. Em vão. O tempo passava e nada de Tonhola aparecer. Eles foram ficando cada vez mais apavorados. Pouco tempo depois foram correndo avisar a pobre da Dona Rica. Muito assustada, ela foi chamando os vizinhos por onde passava e foram todos apressados esperar na extremidade da tubulação nas proximidades do córrego. E nisso, no tumulto, foi aglomerando gente. Nada do menino voltar. Apareceu gente com lanternas, mas sem coragem de ir atrás; outros gritavam da boca dos tubos; alguém comentou que ainda bem não havia previsão de chuva, "já pensou!"; outros tentavam acalmar a pobre da avó e nada, nenhum sinal. Quase no final do dia, um dos curiosos disse que os tubos já estavam praticamente todos interligados e que algumas quadras à frente no sentido do córrego, a tubulação já estava concluída para aquelas ruas. Todos para lá seguiram esperançosos. Já era quase noite, quando, para surpresa de todos, finalmente apareceu o nosso herói com somente alguns arranhões pelos braços, todo tranqüilo, vendo a avó apavorada daquele jeito ele lhe perguntou: — aconteceu alguma coisa?

As Travessuras de Tonhola - Cobra Verde

Os vizinhos de Dona Rica tinham verdadeira compaixão por ela, mas não suportavam o seu neto, o moleque Tonhola. Também, ele não dava sossego, não deixava por menos. Entre os vizinhos havia uma senhora negra e gorda que morava duas quadras distante rua abaixo, sempre ela passava pela rua com seu caminhar vagaroso, nunca entrava, nem sequer parava, mas não deixava de cumprimentar quem estivesse na casa aos berros de lá da rua mesmo, muitas das vezes até mesmo sem saber quem lá dentro se encontrava. Além de obesa, a coitada sofria uma doença terrível que lhe causava inchaço e dores numa das pernas, o que dificultava ainda mais o seu caminhar, era uma tal de elefantíase. A molecada da rua se divertia com a obesidade da coitada, e, é claro, nosso Tonhola não ficava atrás. Certa vez, ele apanhou uma daquelas plantas que parecem uma espada comprida e verde, "espada-de-são-jorge", amarrou uma linha escura bem fina numa das pontas e a escondeu do outro lado da rua no meio do matagal, já quase escurecendo, entrincheirou-se por detrás do muro baixo de sua casa e esperou a coitada da negra passar na volta da missa das cinco da tarde. Assim que ele a viu se aproximando, começou a puxar a linha arrastando lentamente a "cobra verde" diretamente de encontro com a pobre mulher. Deus do céu, vocês nem imaginam o tamanho que foi o susto da coitada quando percebeu aquele nojento objeto emaranhado em seus pés. Com todo aquele peso ela chegou a dar um salto para trás de tanto susto. Quando ela percebeu que tudo não passava de uma brincadeira do moleque Tonhola, o ódio a fez mudar de cor e saiu gritando: Tonhola seu moleque safado, eu ainda te pego seu desgraçado, você me paga! Parou um pouco, colocou a mão sobre o peito, curvou-se para frente tomando fôlego ainda aos berros. Seguiu seu caminho ainda esbravejando e com a respiração apertada.

Tonhola era desses meninos insaciáveis, daqueles que nunca se contentavam com pouco mal feito. Mal ele acabava de aprontar uma e já estava azucrinando as idéias maquinando a próxima façanha. O pior é que ele quase sempre obtinha sucesso em suas artimanhas, por mais perigosas que fossem... Pobre Dona Rica!

As Travessuras de Tonhola - Tonhola na Escola

Está chegando a hora de Tonhola ir para a escola. O que tem tirado o sono de Dona Rica. Sem dinheiro para matriculá-lo numa escola particular, e sem tempo, ou mesmo coragem para ficar atrás de figurões que possam ajudá-la a conseguir uma vaga para matriculá-lo numa escola pública perto de sua casa, ela vai deixando o tempo passar, cada vez mais preocupada com o destino que terá que dar ao moleque, pois pressente que algo de ruim lhe pesará mais ainda sobre os ombros. Só em pensar ela já sente dor de cabeça, pois toda vez que toca no assunto "escola" com o moleque ele lhe apronta alguma. Uma vez ele se trancou no armário após o almoço, pegou no sono entre os panos e só foi sair à tardinha. Imaginem a aflição de sua pobre avó procurando pelo moleque por todos os cantos sem sucesso. Outra vez ele subiu no pé de abacate e se ajeitou bem no alto e nada o fazia descer de lá. Mas a pior de todas foi quando ele jogou álcool no gato de Dona Rica e o atirou no fogo da fornalha, como veremos a seguir noutro episódio, o bichano ficou todo despelado e por sorte não morreu, graças ao socorro que sua avó prestou ainda em tempo de salvá-lo. Muito a preocupa o período depois que o menino estiver na escola, com o seu temperamento, sua hiperatividade, seu relacionamento com os outros meninos e meninas; teme por ser chamada todos os dias a dar esclarecimentos sobre o comportamento dele e também se ele será aceito na escola por muito tempo, sendo do jeito que é. Mas também imagina por outro lado, se os professores conseguirem domá-lo, conseguirem canalizar a sua aparente falta de concentração para o lado bom da aprendizagem escolar, ah, isso seria bom demais de se pensar, ela até dava um sorriso e um pulinho de alegria espantando o arrepio do corpo para as pontas dos dedos. E assim, terminando o episódio, mais feliz do que preocupada, Dona Rica deu sequência aos seus afazeres domésticos.

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As Travessuras de Tonhola - E Assim Tonhola Veio ao Mundo

E assim Tonhola veio ao mundo


De um simples namoro frustrado nasceu Tonhola. Desde o nascimento ele está sendo criado por sua avó, uma santa mulher, Dona Rica. A coitada o faz com todas as dificuldades que a vida já exige e mais as outras inúmeras que o neto inventa, como veremos a seguir. Desde que nasceu ele tem sido a ovelha negra nas mãos de Dona Rica. Que de rica, coitada, só tem o nome, aliás, o apelido, que com o tempo se acostumou a ele como se fora seu próprio nome e por isso não se importa, estranho ela acha quando alguém formalmente a chama pelo próprio nome. Voltemos à apresentação: a ingrata da filha não liga nem para o filho e muito menos ainda para sua pobre mãe; não tem profissão definida, vive vagando pelo mundo, aparece de vez em quando, e na maioria das vezes para se safar de algum problema. A pobre da Dona Rica vive se cobrando sobre o que ela teria feito de errado nessa vida para merecer uma filha assim tão ingrata; se soubesse, com certeza de tudo ela teria feito para que fosse diferente; onde será que teria sido seu erro, que culpa tinha ela se a desmiolada da filha se envolvia com colegas de raça ruim que a levaram a cometer inúmeros erros desde a adolescência. Talvez se não tivesse ficado viúva tão jovem teria sido diferente, com a presença do pai em casa certamente haveria o respeito que a filha não teve para com ela; não a teria desobedecido tanto, não teria namorado aquele sujeito mal encarado, folgado, que lhe causou má impressão desde a primeira vez que o vira ao lado da filha. Não deu outra, foi só a filha engravidar e o sujeito sumiu e nunca quis saber nem dela e nem do filho que ia nascer. Desde então ela fez o máximo que pode para que o neto não se tornasse o maior erro na vida de sua filha. Da filha, foram raríssimas as vezes que ela ajudou com alguma coisa. A pensão que recebe do finado marido, é que vem lhe dando condições de viver.