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domingo, 17 de maio de 2020

O amor e o ódio

Que todos possam ser amados
e se lembrem disso
antes de saírem armados.

Que todos se amem
e façam mais vezes o gesto universal
de respeito e veneração
juntando as palmas das mãos:

— Amém!

sexta-feira, 15 de maio de 2020

As Travessuras de Tonhola - A Mudinha

A mudinha era uma moça baixinha, rechonchuda e assanhada. Tonhola só a conhecia de longe, algumas vezes ele a vira no armazém do turco e ficava observando sua forma de se comunicar emitindo seus diferentes sons, sempre muito sorridente. Certo dia durante um racha no campinho de terra ele ouviu os garotos fazendo comentários não muito elogiosos a seu respeito e ficou encucado com aquilo. O tempo passou. Alguns anos mais tarde, veio a saber que a garotada fazia fila para bulinar com ela sob a frondosa paineira da rua até então somente demarcada; rua que viria a ser aberta pelas máquinas da prefeitura pouco tempo depois. O reboliço era geralmente durante a noite, depois de terminada a novela da televisão. Ela sorria o tempo todo diziam. Foi a primeira vez que Tonhola foi chamado de trouxa pelos colegas. Apesar da tenra idade e da curiosidade avassaladora sobre tão interessante assunto em meninos daquela idade, ele não achava certo e nunca quis se envolver. Ele chegou a frequentar a sombra noturna daquela histórica árvore, mas por outros motivos também libidinosos que lhe causariam menos transtornos. Mas isso é assunto para outro capítulo.

sábado, 2 de maio de 2020

Organizador de coisas

Foi num filme em que a mulher havia se casado com o cara errado, com o inimigo. Um filme de terror. Numa das cenas a câmera percorreu e mostrou detalhadamente o armário da cozinha do cara. Era tudo muito organizado. Rigorosamente empilhados os produtos, com os rótulos todos ordenados, coisa de maluco. Será?
Do filme, até que ele não gostou muito, mas gostou daquilo e ficou com aquela cena na cabeça. Chegou em casa foi no armário e organizou o que pode: alinhou 3 caixas de leite longa vida, empilhou 2 latinhas de sardinha, um pacote de macarrão espaguete e outro de macarrão de sopa e percebeu que precisava fazer compras. Faltaram itens para organizar. Foi à geladeira e também deu uma guaribada.
Lembrou de outro fato que ele teria lido, ou cena que teria assistido, não sabia ao certo de onde, mas se lembrou de um artista que no seu tempo, encomendou doze ternos cinzas rigorosamente iguais, tudo para não gastar os neurônios pensando no que vestir todos os dias; em todas as ocasiões ele estava sempre de terno cinza, virou uma farda. Pensou em organizar também o guarda roupa, abriu o armário e desistiu.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O bolo da Tassinha

O pai compenetrado
tentava ensinar à filha pequena,
só que ela,
viajando,
pediu mais um pedaço de bolo
— Presta atenção menina!
— Tô te explicando
e você só pensa em bolo.

domingo, 26 de abril de 2020

Córdoba

Tenho um amigo
que na juventude
namorou uma moça
que se chamava Córdoba.
Na Argentina deve ter muitas.

Assim como no Brasil tem muitas:

Brasílias,
Aparecidas,
Marianas,
Vitórias,
Iracemas,
Carolinas,
Marílias,
Teresinas,
Áureas,
Angelinas,
Silvanias,
Constantinas,
Lorenas,
Denises,
Rosanas,
Açucenas,
Natividades,
Catarinas,
Guadalupes,
Cássias,
Florânias
Magdas,
Lucélias,
Marilenas,
Cristinas,
Juremas,
Cláudias,
Veras,
Maria Helenas,
Leopoldinas,
Ernestinas,
Barbacenas,
Fátimas,
Angélicas,
Getulinas,
Piedades,
Jacobinas,
Betânias,
Lucrécias,
Lutécias,
Jandiras,
Nazarés,
Jussaras,
Lavínias,
Olímpias...

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Maria Cristina

Enquanto Cristina dormia,
Maria bolinava na sala ao lado.
As duas portas do prédio comercial
ficaram abertas,
Maria não quis fechá-las,
para não acordar Cristina.
Mas ela fechou a porta da divisória
mambembe da entre sala
e seguiu em bolinamento.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

As Travessuras de Tonhola - Pão com sardinha

O melhor da pescaria era a hora do lanche.
Pão com sardinha e guaraná ao natural em garrafinhas de vidro. Algumas das garrafinhas vinham com uma saliência no gargalo, tipo um anel. Sabe-se lá pra quê!
Tonhola desde tenra idade dava mostras de que nunca seria um bom pescador.
Adorava peixe. Frito, ao molho, assado, de qualquer jeito.
Nas pescarias, sobrava pra ele conduzir a tralha, separar os anzóis, as iscas, todos os apetrechos e ainda guardar os pescados. Tinha que fechar bem o viveiro de nylon para que os danados mais espertos não escapassem. O viveiro ficava amarrado numa cordinha com a boca muito bem amarrada e fechada com os peixes dentro, de preferência semi submerso para conservar os peixes ainda frescos e vivos. A outra ponta da cordinha era presa geralmente num galho firme. Não foram só uma ou duas vezes que Tonhola não fechou direito a boca do viveiro e deixou escapar alguns peixes, para ira de seu tio que ficava possesso de raiva. Assim, toda atenção era pouca. O tio de Tonhola era um exímio pescador. Quando alguns amigos compartilhavam da pescaria, no poço que reclamavam que não dava nada, o tio esperava que eles se mudassem de lugar, ia de mansinho, ocupava o canto amaldiçoado pelos amigos pescadores e em quase que total silêncio e concentração, enchia o viveiro enquanto os outros reclamavam. Pescaria é uma arte. Arte que Tonhola nunca aprendeu.
Agora saborear pão com sardinha, com a barriga na miséria, no final da tarde, isso sim ele sabia e fazia com muito gosto.