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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

As Travessuras de Tonhola - Pão com sardinha

O melhor da pescaria era a hora do lanche.
Pão com sardinha e guaraná ao natural em garrafinhas de vidro. Algumas das garrafinhas vinham com uma saliência no gargalo, tipo um anel. Sabe-se lá pra quê!
Tonhola desde tenra idade dava mostras de que nunca seria um bom pescador.
Adorava peixe. Frito, ao molho, assado, de qualquer jeito.
Nas pescarias, sobrava pra ele conduzir a tralha, separar os anzóis, as iscas, todos os apetrechos e ainda guardar os pescados. Tinha que fechar bem o viveiro de nylon para que os danados mais espertos não escapassem. O viveiro ficava amarrado numa cordinha com a boca muito bem amarrada e fechada com os peixes dentro, de preferência semi submerso para conservar os peixes ainda frescos e vivos. A outra ponta da cordinha era presa geralmente num galho firme. Não foram só uma ou duas vezes que Tonhola não fechou direito a boca do viveiro e deixou escapar alguns peixes, para ira de seu tio que ficava possesso de raiva. Assim, toda atenção era pouca. O tio de Tonhola era um exímio pescador. Quando alguns amigos compartilhavam da pescaria, no poço que reclamavam que não dava nada, o tio esperava que eles se mudassem de lugar, ia de mansinho, ocupava o canto amaldiçoado pelos amigos pescadores e em quase que total silêncio e concentração, enchia o viveiro enquanto os outros reclamavam. Pescaria é uma arte. Arte que Tonhola nunca aprendeu.
Agora saborear pão com sardinha, com a barriga na miséria, no final da tarde, isso sim ele sabia e fazia com muito gosto.

sábado, 18 de janeiro de 2020

As Travessuras de Tonhola - Passeio na usina

Num domingo o tio de Tonhola o convidou para junto com os meninos fazerem um passeio diferente.
Organizavam uma caravana para irem de caminhão, naquele tempo podia, fazer um passeio no lago do rio próximo, que se formou com a construção da primeira usina hidroelétrica da cidade.
Com a carroceira quase lotada, todos acomodados em tábuas atravessadas, partiram. Era quase meio a meio homens e mulheres.
Poucas crianças.
Muitas moças divertidas puxavam a animação durante o trajeto.
Fazia sucesso na época uma música romântica que acabara de ser lançada e foram cantando estrada a fora: "... de que vale o céu azul e sol sempre a brilhar, se você não vem e eu estou a te esperar, só tenho você, no meu pensamento, e a sua ausência, é todo meu tormento, quero que você, me aqueça nesse inverno e que tudo mais, vá pro inferno, não suporto mais, você longe de mim, quero até morrer, do que viver assim, quero que você me aqueça nesse inverno, e que tudo mais, vá pro inferno."
Tonhola acompanhou o tio na estreita passarela sobre a barragem.
Suas pernas tremeram com o volume d'água e a velocidade que ela passava por baixo.

As Travessuras de Tonhola - O dentista

Páginas de terror.
A cadeira de dentista era assustadora.
As cordinhas, duas do braço mecânico que sustentava a broca, eram tocadas por um pedal, tipo aquele de máquina de costura.
O dentista, um senhor respeitado, que era prático, naquele tempo podia, sentado em seu banco acoplado à cadeira, tocava o pedal com o pé.
Era comum os dentistas práticos saírem em viagens pelas fazendas atendendo, ou melhor, extraindo e aliviando os pobres coitados.
Tonhola, o paciente impávido na cadeira, via e sentia as cordinhas vibrando com aquele barulho inesquecível.
Que cena macabra, ele se contorcia e se ajeitava na cadeira tentando meio que se afundar nela.
O dentista quase teve que amarrá-lo para iniciar os trabalhos.
Mas não foi preciso, com sua experiência e muito cuidado para não machucar o paciente, conseguiu fazer parte do tratamento.
Que coisa!
Causa remelexos e arrepios só de imaginar.

domingo, 29 de setembro de 2019

As Travessuras de Tonhola - A caligrafia do seleiro

Aquele senhor fora funcionário de um cartório numa outra cidade. Também fora nomeado delegado, na época era assim também com oficial de justiça e juiz de paz.
Ali na fábrica ele era seleiro.
Exímio artesão fabricante de arreios. Fabricava arreio do tipo cutiano e também o do tipo lumbio. O arreio lumbio é aquele de cabeça para se prender as pernas.
Certa vez, Tonhola estava de bobeira ali pela loja, quando viu escrito numa folha de papel destacada de caderno espiral, uma lista de materiais para fabricação de arreios, que o gerente havia deixado sobre o balcão.
Nada de mais, aliás a lista em nada o interessava. Mas aquela letra artesanal, as maiúsculas desenhadas, com garranchos e entornos simétricos, aquilo sim ele nunca tinha visto e ficou fascinado.
A letra do senhor seleiro fabricante de arreios era de uma beleza que muito contradizia com a rudeza de sua atual profissão.
Coisas da vida.

As Travessuras de Tonhola - O amigo Muamba

Muamba foi um dos amigos de Tonhola que tiveram como primeiro emprego o trabalho de ajudante de sapateiro. Ou, como eram chamados na época: "gancho".
Muamba era muito magrinho, esperto e brincalhão. Um sorriso maroto, sempre estampado no rosto, era sua marca.
Era um fiapo de gente, por isso o apelidaram de Muamba.
A fábrica onde trabalhavam tinha por costume fazer uma festa no final do ano.
Seria a primeira que o Muamba participaria na empresa.
A festa era oferecida aos funcionários e familiares, por isso Tonhola não fora convidado.
Ele ficou sabendo depois do ocorrido com o amigo Muamba.
Disseram que o menino se entusiasmou e entrou no embalo dos amigos mais velhos, misturou pinga com cerveja e se deu mal. Deu o maior vexame na festa.
A zoeira foi tanta que aquela foi a última festa oferecida pela empresa aos sapateiros, seleiros e ganchos.

As Travessuras de Tonhola - O Tião e a taca

Naquele dia o Tião não estava com sorte.
Pegou o gerente da loja num dia ruim e nem viu quando o irritado senhor meteu-lhe uma taca nas costas.
Aquilo doeu pra caramba.
Taca é feito um chicote de couro cru, só que em vez de ser trançado e fino é de uma forma larga no início e mais fina na ponta. É feita com duas tiras grossas de couro cru, costuradas uma à outra pra dar maior rigidez à lambada. No punho, geralmente uma argola larga separa a empunhadura do relho. Esse cacete com alça no pulso era muito utilizado para punir os animais e também os escravos.
O Tião não chorou porque tinha gente em volta e porque não era do seu feitio, mas se arredou dali de fininho com o lombo ardendo e a alma então nem se fala.
Ele era um abestado que nasceu com uma deficiência mental. Os médicos na época falaram que ele não passava dos sete anos. Quando Tonhola o conheceu ele já tinha mais de cinquenta anos.
O coitado nasceu troncho, meio curvado para o lado direito, babava e não falava direito. Ouvia muito bem, entendia tudo e ria sempre. Um pobre coitado.
Fosse outro, aquele senhor da loja nunca teria lhe rendido a taca nas costas.

As Travessuras de Tonhola - O Bar Gamela

No Bar Gamela os trabalhadores rurais tomavam suas refeições.
Nos dias de folga, era pouso nas pensões da cidade e bóia no Bar Gamela.
Dona Rica por uns tempos, forneceu ovos para o bar.
Tonhola fazia as entregas. Com muito cuidado ele ia pela rua com aquele caldeirão de alumínio pesado, cheio de ovos frescos. Naquele tempo não havia as embalagens próprias para ovos.
Os sujeitos davam o duro no campo, recebiam e iam para a cidade gastar. Batiam ponto no Bazar Rural e compravam pelo menos uma daquelas camisas "da hora", uma bermuda nova não podia faltar, um chinelo de dedo, um conjunto de toalhas e a calça de casimira. Não viam a hora da noite chegar e se dirigiam cedo para a diversão na zona do meretrício.
Casas de luzes coloridas anunciavam as portas abertas para o comércio do prazer.
Os caras se divertiam.
Alguns abusavam na bebedeira e acabavam voltando no início da semana para a lida na roça sem nenhum tostão no bolso, gastavam tudo na farra.
Pareciam felizes.