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quarta-feira, 28 de abril de 2021

Atrás da porta

Atrás da porta muitas coisas podemos encontrar. Atrás da porta, pode estar o mundo. Caminhando pelo jardim, assim, do nada, vejo uma porta. Uma porta de madeira, linda, entalhada, com um portal magnífico aprumado para o vazio. Imagino o que não haverá do outro lado. Vejo sua fechadura feita por encomenda, sua maçaneta torneada com capricho. Seguro-a firme com a mão direita e abro aquela porta solta. Vocês nem imaginam o que não pode haver atrás de uma porta solta no meio de um jardim, na imaginação de um poeta. Eu achava que esse abril seria bom. Por isso, aqui do alto, diante dessa exuberante paisagem, eu olho para o nada. Á beira do riacho, empilho pedras buscando sua inércia. No meu tabuleiro, só me restam os bispos e alguns peões a proteger-me.

domingo, 2 de agosto de 2020

Fila

O sujeito chegou apressado,
viu o tamanho da fila e se apavorou.
Pegou a senha meio que sem querer;
quarenta na sua frente.
Tirou do bolso um bilhete
e confirmou o horário do ônibus;
menos de duas horas para sair.
O jeito é esperar, pensou.
Reparou um guri, o segundo da fila.
Reclamou qualquer coisa;
disseram-lhe da fila:
"segure sua senha e se aquiete".
A aflição lhe tomou de conta,
não se aguentou e foi até o guri::
"vinte paus pra trocar a senha".
O moleque se assustou.
Uma moça logo atrás,
ouviu e se adiantou:
"troco a minha por quinze".
O garoto não gostou
e disse: "tudo bem eu topo".
Pescoços foram espichados.
Alguns resmungos na fila.
O negócio foi fechado.
Ficou por isso mesmo,
ninguém foi prejudicado
por aquele ato indigesto
de corrupção pura.
O corrupto e o corruptor
se entenderam bem
para a indignação de todos
que engoliram quietos.
O sujeito foi atendido,
pagou suas contas e vazou.
O guri foi para o final da fila
sob condenatórios olhares
de grande parte da fila.
Onde se enquadra a moça
que tentou se corromper
corrompendo o corrupto?

domingo, 7 de junho de 2020

Poemas perdidos

Alguns poemas se perdem
eles brotam fora de hora.
Um bom tempo depois
podem voltar nos sonhos.

Guinada

Foi bom saber
que aquele moço engomadinho
que influencia milhões
deu uma guinada na vida.

Na entrevista
o engomadinho não se posicionou
nem para o lado do que foi pra Paris,
nem daquele que prega o Estado mínimo,
preferiu o conforto e o equilíbrio do muro.

Já imaginou um país como o nosso sem o Estado?
Quem iria tomar conta de nossas águas limpas e sujas,
de nossas fontes de energia,
de nosso imenso e rico subsolo,
do pulmão do mundo?
Quem iria zelar pela ciência, educação,
saúde e segurança de todos
e não somente dos que podem pagar?

Enquanto a direita pune,
apedreja, massacra, estraga,
pra conservar o seu mundo como está,
a esquerda vibra, canta, planta,
pulsa, pula, diverte,
faz arte, faz canções,
produz, faz girar o mundo
e luta para transformá-lo num lugar melhor para todos.

Enquanto a direita se veste de verde e amarelo da boca pra fora
a esquerda vibra e chega a chorar quando ouve o hino nacional.

Enquanto a direita desdenha e menospreza a ciência e a morte
a esquerda respeita e acredita e tem fé na vida
enquanto houver um fio de esperança,
o última que morre.

Enquanto a esquerda não enxerga fronteiras,
pois somos todos países irmãos,
a direita prega nosso país acima de tudo,
venera a bandeira de outro país
e ainda usa o nome d'Ele em vão... acima de todos.

Falsos profetas usam a religião,
abusam da fé do homem,
vendem feijões e lenços ungidos,
mentem e prometem milagres
que não conseguirão cumprir,
em busca de riqueza e poder.
A fé do homem exige respeito.

As igrejas precisam rever seus conceitos.

Vi belas igrejas cercadas por grades
para protegê-la do homem,
o mesmo homem que ela deveria sim:
proteger e apoiar.

"A economia não pode parar", dizem.
O mercado é um monstro.
Ele cria monstros
que vomitam frases assim
e as priorizam
acima da saúde e da vida.

O monstro os alimentou
com uma educação de merda
e os soltaram para a vida
sem saber quem foi Getúlio,
quem dirá Brizola;
sem saber quem foi Noel,
quem dirá Taiguara.

Sabemos que são minoria,
mas não podem ser desprezados,
precisamos enfrentá-los
com a força da palavra
e a voz da razão,
antes que o estrago aumente.

Hoje eles nos desrespeitam nas redes,
amanhã será nas ruas
e depois em nossas casas.

A direita fala em armas,
a esquerda em amor e livros.

Apesar de tudo isso:
precisamos conviver com eles.
Por mais duro que seja,
alguns são parte de nós:
são vizinhos antigos,
colegas de trabalho,
amigos de infância,
irmãos, tios e primos.

Com opiniões diferentes,
mas juntos em comunhão:
Democracia!

A política está em nós
não existe velha ou nova,
existe: a política.
Nela, ninguém faz nada sozinho,
não existem mitos
nem salvadores da pátria.

Ninguém nasce racista
ninguém nasce homofóbico,
ninguém nasce xenofóbico,
ninguém nasce com ódio,
ninguém nasce com nojo.
O mal está no homem.
O mal é coisa do homem.

Nenhum grupo pode ser considerado
menor que o outro.
Somos todos iguais.

Precisamos educar nossas crianças.
Falar com elas.
Nós que as formamos.
Crianças em isolamento
são incompreendidas.
A dor reprimida cria monstros ferozes.

Negros, ricos, pobres, índios, gays,
nordestinos e todas as minorias
precisam ser respeitadas.
"Bicha também é gente".
Li isso num viaduto
a primeira vez que tive em São Paulo
no início dos anos oitenta.

Respeito.

A igualdade de gênero,
que apavora as gerações
não tem nada de pavor:
É só aceitar que homens e mulheres
devem ter os mesmos direitos e deveres.
A igualdade entre os sexos é um direito humano,
a igualdade entre os gêneros também,
com todas as suas variações.

Foi preciso uma pandemia com essas proporções
para muitos entenderem e aceitarem
a importância do nosso Sistema Único de Saúde.
Infelizmente, muitos ainda sentirão o peso da dor da perda.
A ciência dará o seu recado e trará o elixir.
Depois... o mundo será outro.

domingo, 17 de maio de 2020

O amor e o ódio

Que todos possam ser amados
e se lembrem disso
antes de saírem armados.

Que todos se amem
e façam mais vezes o gesto universal
de respeito e veneração
juntando as palmas das mãos:

— Amém!

sexta-feira, 15 de maio de 2020

As Travessuras de Tonhola - A Mudinha

A mudinha era uma moça baixinha, rechonchuda e assanhada. Tonhola só a conhecia de longe, algumas vezes ele a vira no armazém do turco e ficava observando sua forma de se comunicar emitindo seus diferentes sons, sempre muito sorridente. Certo dia durante um racha no campinho de terra ele ouviu os garotos fazendo comentários não muito elogiosos a seu respeito e ficou encucado com aquilo. O tempo passou. Alguns anos mais tarde, veio a saber que a garotada fazia fila para bulinar com ela sob a frondosa paineira da rua até então somente demarcada; rua que viria a ser aberta pelas máquinas da prefeitura pouco tempo depois. O reboliço era geralmente durante a noite, depois de terminada a novela da televisão. Ela sorria o tempo todo diziam. Foi a primeira vez que Tonhola foi chamado de trouxa pelos colegas. Apesar da tenra idade e da curiosidade avassaladora sobre tão interessante assunto em meninos daquela idade, ele não achava certo e nunca quis se envolver. Ele chegou a frequentar a sombra noturna daquela histórica árvore, mas por outros motivos também libidinosos que lhe causariam menos transtornos. Mas isso é assunto para outro capítulo.

sábado, 2 de maio de 2020

Organizador de coisas

Foi num filme em que a mulher havia se casado com o cara errado, com o inimigo. Um filme de terror. Numa das cenas a câmera percorreu e mostrou detalhadamente o armário da cozinha do cara. Era tudo muito organizado. Rigorosamente empilhados os produtos, com os rótulos todos ordenados, coisa de maluco. Será?
Do filme, até que ele não gostou muito, mas gostou daquilo e ficou com aquela cena na cabeça. Chegou em casa foi no armário e organizou o que pode: alinhou 3 caixas de leite longa vida, empilhou 2 latinhas de sardinha, um pacote de macarrão espaguete e outro de macarrão de sopa e percebeu que precisava fazer compras. Faltaram itens para organizar. Foi à geladeira e também deu uma guaribada.
Lembrou de outro fato que ele teria lido, ou cena que teria assistido, não sabia ao certo de onde, mas se lembrou de um artista que no seu tempo, encomendou doze ternos cinzas rigorosamente iguais, tudo para não gastar os neurônios pensando no que vestir todos os dias; em todas as ocasiões ele estava sempre de terno cinza, virou uma farda. Pensou em organizar também o guarda roupa, abriu o armário e desistiu.