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sábado, 4 de maio de 2013

No elevador

Que demora. Reclamou do elevador que não chegava nunca. No corredor apertado do edifício comercial ele conferiu as câmeras do circuito interno espalhadas. A segurança ali era forte. Chegou uma moça com uma pasta de couro cor café com a alça no ombro e outras pastas de cartolina, quatro, que ela com dificuldade segurava no braço, todas com calhamaços de papel com jeito de processos judiciais. Certamente ela devia trabalhar em algum escritório de advocacia como secretária, ou quem sabe, já seja uma advogada, apesar da pouca idade. Mal o elevador parou e um garoto apressado surgiu do nada e lhes fez companhia na subida. Ninguém havia descido nele, o elevador deve ter demorado por ser velho mesmo. O ansioso garoto, por certo um auxiliar de escritório, devia estar atrasado pois foi o que apertou os botões de parada para os três, o dele pararia primeiro. Foi a única palavra que trocaram, o número do andar que iam. Descido o rapaz, continuaram a subir. Nenhuma palavra. Ele conferiu direito e certificou-se que a moça tinha uma beleza discreta, ou escondida atrás de umas roupas sérias e do calhamaço de papéis. Ela pareceu perceber que era observada e tentou se ajeitar para um canto, olhou para o alto onde ela sabia ter uma câmera interna, como se desse o recado a ele, estamos sendo observados, cuidado. Ele fez de conta que não era com ele. Também olhou para a câmera e para disfarçar um pouco a saia justa, tirou o celular do bolso e conferiu se tinha sinal como se esperasse alguma ligação. O elevador parou, a moça saiu rápida e aliviada, mas ainda fora vítima de uma última e detalhada olhada. Seguiu sozinho rumo ao final do percurso. Um amigo de muitos anos trabalhava naquele prédio nos últimos andares que pertenciam a um cartório. Perdeu a viagem. O amigo se aposentou alguns meses antes e disseram-lhe que ele havia se mudado para o interior. Pelo menos conseguiu um número de celular que não deu sinal.

Guarda-corpo

Sentado sobre a mureta do viaduto, com as pernas penduradas ele observava a cidade que em rapidez passava em baixo. Os veículos no viaduto também passavam em velocidade a pouco mais de um metro de suas costas. De longe, um caminhão enorme, estranho, que se aproximava parecendo ser conduzido pelos demais veículos se destacava. Sua carroceria era alta e toda colorida. Não passava de um carro de som desses de animar festas. O sol apertou. Sua pasta solta sobre a mureta, o paletó a cobri-la. Os pensamentos em devaneio. Que cidade maluca. Nem notou que se aproximava um guarda que lhe pediu que dali se retirasse. Era perigoso. Ele até estranhou a gentileza do guarda, mas prontamente atendeu e seguiu seu rumo.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Mudança de ares

Esperando alguém? Sim, quer dizer, estava, mas já faz tanto tempo que tenho a impressão que levei um bolo. Fica assim não, posso me sentar? Claro, vou pedir um copo. A quanto tempo você está aqui sozinho? Alguns minutos. Um brinde a isso. Tim, tim. Mulher é assim mesmo elas vivem nos dando o bolo. Quem foi que disse que era uma mulher? Caramba! Com um sorriso irônico e cara de quem não entendeu nada ouve em silêncio depois de uma golada de mais de meio copo. Estou aguardando um sujeito que está hospedado num hotel aqui no centro, ele ligou ontem me oferecendo um trabalho no norte, coisa grande, uma empreitada para uns três ou mais anos e como estou em fase de separação de minha esposa, sabe como é, vi com bons olhos essa mudança de ares. Só que o sujeito não apareceu até agora. Sei. Então você está se separando? Pois é, depois de tantos anos com a mesma pessoa, estamos nessa fase crítica. Mas sem brigas, simplesmente estamos em comum acordo entendendo que chegou a hora da separação. Temos dois filhos e ambos já adultos pensamos em nos dar uma outra chance. Parece ser um pouco tarde, mas enfim, vamos tentar, está quase tudo acertado. Os filhos são contra, é claro, principalmente a filha, que é mais nova e sente mais. Ela sempre foi muito ligada a mim, mais do que à mãe e não quer que eu me afaste deles, mesmo confirmada a separação. Você deve estar sofrendo muito com isso. Nada, a gente acha que sofre muito mas depois só em pensar na liberdade, em não ter mais com quem discutir assuntos bestas como estávamos praticamente todos os dias, tudo era motivo para discussão, por esse lado, parece um alívio pensar em uma vida diferente, sem essa pressão diária. A expectativa que criamos de uma nova vida é maior que a dor da separação. Pode ser. Mas vocês ainda estão morando juntos? Sim estamos, por enquanto, mas já estou olhando um apartamento pequeno para o caso de eu continuar por aqui. Como não tenho emprego fixo, fica mais fácil. Pois pode contar comigo se precisar de alguma coisa. Qualquer dia desses apareça lá em casa para um jantar, ou mesmo para bater um papo como estamos fazendo agora. Só que tenho que ir. Tá bom, vou ficar mais um tempo por aqui, pode ser que o tal sujeito ainda apareça. Até mais.

sábado, 16 de março de 2013

Ora Pois


Ora Pois

Pois é
Pois tanto
Pois quis
Pois foi
Pois queria
Que tivesse sido
Acabou não sendo
Pois é
Pois tanto
Pois foi
E queria ter sido
Pois ia

domingo, 13 de janeiro de 2013

Wind

Wind chegou para alegrar a casa.
É uma cadelinha linda.
Bons ventos.

Cantinho

É um cantinho simples.
Ninguém dá nada por ele.
Não importa.
Nada importa para aqueles dois quando estão juntos.
O cantinho é deles. Só deles.
E são felizes.
Fora dali são seres normais.

Laços de união

Abraço forte,
toque de pele,
beijo na boca.
Ah! Que delícia!
O dia fica mais bonito
esteja até o céu nublado.
Chocolate quente pela manhã,
pão com manteiga na chapa.
Mais que cheirinho bom.
Uma lasca de fruta para adoçar a vida.
Almoço em família à mesa,
discussões bobas,
laços de união.